Por Mariana Guerin
A chamada “microrrevolução verde” já está em curso no Brasil
e tem transformado a forma de produzir alimentos com mais eficiência e menor
impacto ambiental. Essa foi a mensagem da pesquisadora da Embrapa Soja, Dra.
Mariângela Hungria, aos participantes do 3º Seminário Regional de Produção
Sustentável de Grãos Soja/Milho, realizado na Arena Futuro, no Pavilhão Smart
Agro da ExpoLondrina 2026 na manhã desta quarta-feira (15).
Mariângela Hungria da Cunha é pesquisadora da Embrapa Soja,
de Londrina, e venceu o World Food Prize 2025, premiação mais importante da
agricultura mundial, conhecida como o "Nobel da Agricultura”. Também foi
reconhecida na lista TIME100 2026, como uma das pessoas mais influentes do
mundo na categoria Pioneiros. A lista foi divulgada nesta quarta no site da
revista Time, que reconhece o impacto, a inovação e as conquistas de
personalidades mundiais.
Com uma trajetória consolidada na microbiologia do solo, a
pesquisadora mostrou na ExpoLondrina como o uso de microrganismos tem
revolucionado a agricultura ao promover ganhos produtivos e redução nos custos,
além de contribuir diretamente para a mitigação das emissões de gases de efeito
estufa.
Solo vivo, agricultura
mais eficiente
A base dessa transformação está no entendimento de que o solo
funciona como um sistema vivo. Em ambientes naturais, como florestas, há
equilíbrio na ciclagem de nutrientes. Já na agricultura moderna, especialmente
em larga escala, esse equilíbrio precisa ser reconstruído com tecnologia.
Segundo a pesquisadora, o modelo atual ainda depende fortemente
de fertilizantes químicos, muitos deles importados e com baixa eficiência. Em
alguns casos, até metade do nitrogênio aplicado é perdido, enquanto o fósforo
tem aproveitamento médio de apenas 15%. “Além do desperdício econômico, essas
perdas impactam diretamente o meio ambiente, contaminando águas e aumentando a
emissão de gases de efeito estufa”, disse Mariângela.
É nesse cenário que entram os bioinsumos promotores de
crescimento vegetal, utilizados no Brasil há décadas na forma de inoculantes.
Esses microrganismos vivos atuam diretamente nas raízes, promovendo a fixação
biológica de nitrogênio, o crescimento radicular e o melhor aproveitamento de
nutrientes.
O Brasil, segundo Mariângela, é líder mundial nessa
tecnologia. Atualmente, cerca de 35% da área cultivada com soja utiliza coinoculação.
“Essa inovação tem raízes históricas importantes, com destaque para
pesquisadores como Johanna Döbereiner e João Ruy Jardim Freire, que foram
fundamentais para o desenvolvimento da fixação biológica de nitrogênio no
país”, recordou a pesquisadora.
Ganhos econômicos e
ambientais
Segundo ela, os resultados são expressivos. Apenas na cultura
do milho, o uso de microrganismos permite reduzir em até 25% a necessidade de
fertilizantes nitrogenados, representando uma economia estimada em US$ 175
milhões, além da redução de cerca de 1,87 milhão de toneladas de CO2 equivalente.
Além disso, a coinoculação, que é o uso combinado de diferentes bactérias, tem
proporcionado ganhos médios de até 8% na produtividade da soja, podendo chegar
a 20% em algumas culturas, como o feijão.
Mariângela Hungria também destacou o alinhamento dessas
tecnologias com o conceito “One Health”, que integra saúde humana, animal e
ambiental. “Quando reduzimos o uso de fertilizantes químicos, diminuímos a
contaminação da água, melhoramos a qualidade do solo e contribuímos para a
saúde global”, explicou.
O Paraná tem papel de destaque nesse cenário e já foi
considerado a “capital nacional dos inoculantes”. Hoje, segue como referência
na adoção de tecnologias sustentáveis, com forte atuação de cooperativas e
instituições de pesquisa.
Projetos conduzidos pela Embrapa Soja em parceria com o Instituto de Desenvolvimento
Rural do Paraná (IDR-Paraná)
demonstram que pequenos
produtores também se beneficiam diretamente dessas soluções, com aumento médio
de produtividade e ganhos financeiros consistentes. Ao longo das safras de
2017/18 a 2023/24, a adoção da Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) com
coinoculação gerou ganhos consistentes no campo paranaense.
O levantamento, baseado em 280 Unidades de Referência
Tecnológica (URTs), aponta que lavouras com a tecnologia alcançaram
produtividade média de 62,13 sacas por hectare, superando em 4,61 sc/ha
(incremento de 8,01%) as áreas sem coinoculação. Esse desempenho técnico se
traduz diretamente em rentabilidade, com retorno líquido médio de R$ 500,48 por
saca adicional, evidenciando o potencial da prática para fortalecer a
sustentabilidade e a competitividade da soja paranaense.
Desafios e futuro
Apesar dos avanços, a pesquisadora alertou para desafios
importantes, como a necessidade de ampliar o acesso às tecnologias para
diferentes culturas e fortalecer a produção de bioinsumos no país. Outro ponto
crítico é o uso correto dessas soluções. “Não basta aplicar o produto, é
preciso adotar um pacote tecnológico e seguir recomendações técnicas, entender
compatibilidades e respeitar as condições do solo”, reforçou.
Para a pesquisadora, com um mercado em expansão e crescente
interesse global, os bioinsumos consolidam o Brasil como protagonista de uma
agricultura mais sustentável, eficiente e alinhada às demandas do futuro. “A ciência
brasileira mostrou que é possível produzir mais, com menos impacto. Essa é a
verdadeira revolução que estamos vivendo”, concluiu.
Manejo de solo
Outro destaque do seminário foi a palestra da pesquisadora Dra.
Graziela Moraes de Cesar e Barbosa, do IDR-Paraná, que abordou o manejo de
solos e da água em microbacias hidrográficas. Ela apresentou estudos
comparativos que evidenciaram, de forma prática, a importância do terraceamento
como estratégia essencial de conservação.
Os dados mostraram que áreas com terraços registraram redução
significativa no escoamento superficial e, principalmente, na perda de solo e
nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio, que são levados pela enxurrada.
De acordo com Graziela Barbosa, em eventos extremos de chuva,
as áreas terraceadas mantiveram a integridade da lavoura, evitando erosão,
replantio e prejuízos. “Além de preservar um recurso que leva séculos para se
formar, o terraceamento representa economia direta ao produtor, ao evitar a
perda de insumos já aplicados e garantir maior estabilidade produtiva,
reforçando seu papel como prática indispensável dentro de sistemas
conservacionistas”, sugeriu.
Para a pesquisadora, “onde tem mais água, o solo produz mais”.
Pesquisas realizadas pelo IDR-Paraná em parceria com o Sistema FAEP, com foco na conservação e
produtividade agrícola, mostraram que a implementação de terraços no campo
promove benefícios sistêmicos, como a redução do escoamento superficial e a redistribuição
estratégica de água nas encostas, o que favorece a biologia do solo, o
sequestro de carbono e o controle erosivo.
Segundo ela, o mais preocupante é que muitas vezes o
agricultor não percebe o que está perdendo. “A erosão no sistema de plantio direto
é, em grande parte, laminar e invisível no dia a dia. Só se nota quando já há
sulcos, mas até lá, solo, água e nutrientes já foram levados, representando
prejuízo direto no bolso. Quando o produtor faz essa conta, considerando o
tamanho da área, o impacto econômico é significativo”, alertou a pesquisadora
do IDR-Paraná.
Para a diretora de Inovação da Sociedade Rural do Paraná,
Tatiana Fiuza, o objetivo do Pavilhão Smart Agro também é desmistificar o
agronegócio, aproximando desde as crianças que visitam o parque até os
produtores rurais. “Pensamos em uma programação que dialogue com todos os
públicos, promovendo conhecimento e valorizando a ciência”, disse.
Já o diretor de Extensão Rural do IDR-PR, Paulo Eduardo Sipoli Pereira,lembrou que o grande desafio da agricultura é produzir com sustentabilidade, enfrentando questões climáticas, de mercado e incorporando cada vez mais tecnologia no campo. “Além de avançarmos em manejo de pragas, doenças e no uso de inoculantes para aumentar a produtividade, temos também um novo compromisso, o de produzir água”, destacou Pereira, explicando que isso significa reforçar práticas de conservação do solo e da água, resgatando princípios do plantio direto e mostrando que o produtor rural além de produzir alimentos, preserva recursos essenciais. “Seguiremos fortalecendo esse trabalho e ampliando essas ações, levando conhecimento do campo para a cidade”, finalizou.